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GARANTIA DE DESEMPENHO

Teste de desempenho reprovado: o que fazer quando o equipamento não atinge o garantido

Capacidade abaixo da contratada, emissão acima do limite, consumo maior que o previsto. Antes de rejeitar o equipamento ou aceitar a multa, é preciso responder três perguntas.

Por , advogado e engenheiro mecânicoPublicado em 06/10/20267 min de leitura

O teste de desempenho, ou performance test, é o momento em que o fornecedor demonstra que o equipamento entrega o que foi prometido. Quando o resultado fica abaixo do garantido, começa uma disputa que pode envolver multas, correções, retenção de pagamentos e até rejeição do equipamento.

Primeira pergunta: o que exatamente foi garantido?

Garantias de desempenho valem para condições específicas: tipo e características do material, vazão, umidade, temperatura, combustível. Se o processo real é diferente das premissas contratuais, o resultado do teste pode não refletir uma falha do equipamento.

Segunda pergunta: o teste foi válido?

Um teste mal conduzido não prova falha do equipamento. E um teste bem conduzido não deixa espaço para discussão.

Terceira pergunta: qual é a causa do desvio?

O desvio pode vir do projeto, da fabricação, da montagem, da operação, da manutenção ou de condições de processo diferentes das informadas. A causa define quem responde, e só uma análise técnica consegue identificá-la.

Os caminhos possíveis

Atenção aos prazos

Além das regras do contrato, o Código Civil trata dos vícios ocultos da coisa vendida (arts. 441 a 446). Para bens móveis, o prazo para agir é curto: em regra, 30 dias da entrega e, quando o vício só pode ser conhecido mais tarde, até 180 dias. Por isso, o comprador não deve esperar para formalizar a reclamação.

O que fazer após um teste reprovado
  • Registrar formalmente o resultado e as condições do teste
  • Notificar a outra parte nos prazos do contrato
  • Preservar dados de operação e de processo do período
  • Fazer análise técnica independente da causa
  • Definir a estratégia: correção, multa, abatimento ou rejeição

O que costuma ser garantido em cada tipo de sistema

SistemaGarantia típicaO que verificar no teste
Filtro de mangasConcentração de emissão (mg/Nm³)Método de amostragem, condições de carga e temperatura do gás
CaldeiraCapacidade de vapor (t/h) e eficiênciaCombustível usado, poder calorífico e condições de operação
Moagem e peneiramentoCapacidade (t/h) e granulometriaDureza, umidade e granulometria de entrada do material
Transporte pneumáticoVazão (t/h) e consumo de arCaracterísticas do material, distância e umidade
Dosagem e misturaPrecisão de dosagem (%) e homogeneidadeCalibração, faixa de vazão e método de amostragem
Tratamento de efluentesParâmetros de lançamentoVazão e carga do efluente na entrada
EXEMPLO HIPOTÉTICO
Filtro de mangas acima do limite de emissão

O contrato garantia emissão máxima de 30 mg/Nm³. No teste, a medição indicou 42 mg/Nm³, e o comprador anunciou a aplicação de multa e a retenção da última parcela.

A análise técnica mostrou que, durante o teste, o gás chegava ao filtro com temperatura abaixo da prevista nas premissas de projeto anexadas ao contrato, provocando condensação e entupimento das mangas. Com isso, a discussão deixou de ser "o filtro não funciona" e passou a ser "as condições do teste não correspondiam às condições garantidas". A solução negociada foi um novo teste, com o processo nas condições de projeto.

Como o contrato deveria tratar o tema

Multa por desempenho e indenização

Se o contrato prevê multa por desempenho e não diz nada sobre indenização suplementar, a multa tende a funcionar como teto do que pode ser cobrado (Código Civil, art. 416, parágrafo único). Por isso, a redação dessa cláusula define, na prática, quanto o comprador pode recuperar.

Passo a passo antes, durante e depois do teste

  1. Antes do teste: confirme por escrito o método, os instrumentos, a duração, as condições de processo e quem opera o sistema. Divergências resolvidas antes do teste evitam meses de disputa depois.
  2. Durante o teste: registre continuamente as condições de operação, com dados do sistema de controle, fotos e atas assinadas pelas duas partes. Se as condições saírem do especificado, anote na hora.
  3. Logo após o resultado: formalize o resultado e as condições em que ele foi obtido. Se houver discordância, registre a ressalva imediatamente.
  4. Na análise do desvio: separe as hipóteses de causa (projeto, fabricação, montagem, operação, processo) e verifique cada uma com dados, não com opiniões.
  5. Na negociação: use o diagnóstico técnico para propor o caminho mais eficiente: ajuste, novo teste, abatimento ou, nos casos mais graves, rejeição.

Para o fornecedor: como se proteger

Para quem fornece o equipamento, a melhor defesa começa na proposta técnico-comercial. Garantias amplas demais, sem condições de processo definidas, transferem ao fornecedor riscos que ele não controla. Antes de assinar, é importante:

Para o comprador: como garantir o que foi contratado

Para quem compra, o objetivo é ter garantias mensuráveis e consequências claras. Uma garantia que não pode ser medida de forma objetiva dificilmente será cobrada. Vale exigir o detalhamento do teste já na fase de proposta e atrelar parte relevante do pagamento à aceitação do equipamento.

Perguntas frequentes

Posso reter o pagamento enquanto o equipamento não atinge a garantia?
Depende do contrato. Quando há marcos de pagamento ligados à aceitação, a retenção costuma ser legítima. Sem previsão, a retenção pode gerar discussão sobre inadimplemento do próprio comprador.
Quem paga o novo teste?
Normalmente, quem deu causa à reprovação. Se a causa foi o equipamento, o fornecedor; se foram as condições de processo, o comprador. Por isso a análise da causa é decisiva.
O fornecedor pode recusar o teste?
Se o contrato prevê o teste como condição de aceitação, a recusa costuma configurar descumprimento. O ideal é documentar a convocação e as condições oferecidas.
Vale a pena um parecer técnico antes de negociar?
Sim. Saber a causa provável do desvio muda completamente a posição de cada parte na negociação.

Como atuamos em disputas de garantia de desempenho

Passamos mais de 20 anos especificando, desenvolvendo, coordenando e implantando caldeiras, filtros, sistemas de transporte, moagem e dosagem, inclusive definindo garantias e critérios de aceitação em contratos de fornecimento. Por isso, conseguimos analisar ao mesmo tempo o que o contrato garante, como o teste foi conduzido e qual é a causa técnica provável do desvio. Atendemos fornecedores e compradores, sempre avaliando antes a inexistência de conflito de interesses, com atendimento remoto em todo o Brasil e presencial em São Paulo, sob agendamento.

Conteúdo informativo, que não substitui a análise do caso concreto por um profissional habilitado.

Fernando Sumitani
Fernando Sumitani Advogado (OAB/SP) e engenheiro mecânico (CREA-SP). Atua em advocacia empresarial, sucessões e disputas técnicas industriais.
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